Do austríaco Michael Haneke, “Amor” (Amour) desafia o espectador e seus pressupostos.

Polêmico? Sim. Tanto quanto preciso no formato, acertado na narrativa e fascinante nas reflexões que provoca.

Envelhecimento, morte, lealdade e outros afetos humanos são tratados a partir da história de um casal de idosos. Eis que a mulher, Anne (a francesa Emmanuelle Riva), começa a adoecer e depender cada vez mais dos cuidados do marido, Georges (Jean-Louis Trintignant), que se dedica integralmente a ela com carinho e atenção inquestionáveis.

Assim segue o dia a dia dos dois ex-professores de música confinados em seu amplo apartamento, vez ou outra visitados pela filha e um gentil casal de vizinhos solícitos. Ao longo do filme a paralisia de Anne vai se agravando. É nítido. A elegante e culta companheira de Georges está cada vez mais fraca, dependente e próxima da morte.

Os acontecimentos cotidianos já seriam suficientes para, como um espelho, proporcionar intensas reflexões sobre a brevidade da vida, o definhamento do corpo, os limites da dedicação… Mas o diretor vai mais longe. Tal qual na vida real, surge o inesperado. Sem alardes. Cru. No ritmo e no ponto do roteiro.

Como de costume, entre descortinar e agradar, Haneke escolhe abrir as cortinas.

Mais que a resistência do amor frente a doença, o filme aborda a fragilidade do corpo, a perda da autonomia, a dependência de outros (nem sempre aptos, generosos e sensíveis para assumir a tarefa de assistir um idoso debilitado – como é o caso da enfermeira demitida por Georges por maltratar sua esposa já em fase terminal), e o dia a dia na iminência da despedida definitiva da pessoa ao lado de quem se construiu uma vida.

O que fazer com a frustração – resquício da impotência diante do sofrimento alheio? Transcende-la ou encerra-la bruscamente?

Ao final dos 127 minutos saímos, no mínimo, com uma questão: trata-se da frustração de quem fica (e, exausto, sabe que a luta está perdida) ou trata-se da lealdade, atendendo ao pedido feito por Anne no início da doença para nunca ser internada em um hospital?

“Amor” tem o mérito de demandar a imaginação do espectador para completar seu enredo, além de gerar profundas reflexões ao provocar e dar espaço a questionamentos existenciais. Lacunas, ritmo e tempo permitem visitar nossas próprias convicções sobre temas que cedo ou tarde virão ao nosso encontro – estejamos preparados ou não.

“Em todo meu trabalho tento criar um diálogo no qual quero provocar os receptores, estimulá-los a usar suas próprias imaginações. Eu não digo apenas coisas que os receptores querem ouvir, [nem procuro] lisonjear seus egos ou confortá-los concordando com eles. Quando vejo um filme ou leio um livro é isso que espero – ser levado a sério. Quero ser levado a me questionar, a questionar coisas que eu suponho saber”, diz o diretor.

“Amor” traz diversas possibilidades de aproximação com algumas certezas da vida. É um convite para encarar questões tão inevitáveis quanto evitadas – ou “sub-abordadas” – nas telas de cinema e fora delas.

Vale encarar (com um lenço nas mãos).

Paula Diniz

*Alguns filmes de Michael Haneke: Caché, Código Desconhecido, A Fita Branca.

**Outro filme que trata (bem mais diretamente) da morte e do controle sobre ela (seja por adiamento ou adiantamento) é o americano “Você não conhece Jack” (You don’t know Jack – 2010), com Al Pacino interpretando Jack Kevorkian, o famoso “Dr. Morte”.

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